Dor de amor não mata, mas a depressão mata

Era junho ou julho, talvez maio, quando eu recebi a minha alta da medicação. Foi uma decisão minha, afinal, eu estava ótima. A terapia era a maior perda de tempo, eu não tinha nada para falar. Eu não chorava mais, os medos criados por mim mesma sumiram e eu não tinha aquelas inseguranças exacerbadas.

Os médicos concordaram, a terapeuta compreendeu, e assim eu comecei o desmame.

Nesse meio tempo de medicação e alta, eu conheci uma pessoa “nova”, a gente se dava muito bem (ou da, sei lá eu), ela me distraía, sabe? Fazia eu enxergar uma vida mais leve, uma gratidão pela natureza, uma generosidade com as pessoas, um desapego do material. Coisas que eu passei a admirar, muito.

Ele não tinha medos. Na verdade, ele tinha, mas sempre soube usar o medo de um jeito diferente, como uma força que impulsiona e não que paralisa, ele usava o medo como combustível pra continuar.

Eu não sei quanto tempo a gente ficou junto, mas sei que foi intenso, começou de repente e quando eu vi, já estava na casa dele, com a mãe e a vó no sofá. Talvez tudo tenha acontecido rápido demais.

Eu acho que foi uma mistura de carência dele, com o meu desejo de ter UMA companhia, sabe?

O fato, é que, caralho, como ele me fazia bem.  A gente viajava, olhava para o mar, mergulhava (ele né, eu só tentava), fazíamos trilhas para a cachoeira (eu morta e cheia de picadas e ele sempre muito pleno, como quem está fazendo compras no shopping). Eu nem estava a fim de fazer aquelas coisas, mas eu não me incomodava, porque aquela companhia era muito legal, e querendo ou não me fazia ter uma visão nova sobre as coisas.

A gente não saia muito, nosso auge era levar a Frida para passear, e eu estava muito bem com aquilo, nunca fui da balada.

Aliás, a Frida é outro ponto importante, aquela cachorra ama ele, e isso me fazia admirá-lo ainda mais. Afinal, toda mãe quer que seu filho (ainda que um cachorro), se de bem com seu parceiro.

O fato, minha gente, é que foi aqui que eu pequei.

A minha saúde mental dava leve sinais de que eu não estava bem, mas eu, inconscientemente, me apeguei a uma pessoa que me trazia conforto, como uma tentativa de expulsar toda tristeza que queria me atormentar.

Quando eu acordava, eu não queria fazer nada, eu passei a faltar bastante aula e trabalhar com o mínimo, sabe? Fazendo o que tinha que ser feito, sem nem tentar dar o meu melhor. Eu não estava em uma boa fase com as minhas amigas, eu absorvi coisas que não devia, e me chateei com questões que não competem a mim.

Como a gente não vive em conto de fadas, nosso lance acabou.

Não faltava sentimento (eu acho), mas sim porque a gente está em fases muito diferentes da nossa vida.

Ele é uma pessoa incrível, mas lembram daquele sentimento de medo que eu falei que ele usava para o bem?

Pois é, no que diz respeito a outros sentimentos, ele era muito ruim (alfinetando mesmo). Eu não sei se é porque a família dele é meio estranha, se é porque ele nunca teve um modelo de casal feliz em casa, o fato é que ele tem medo sim, de amar.

Do jeito que ele se entrega para a natureza, pro esporte, pro trabalho, ele não se entrega pro que sente. Eu não culpo ele, cada um tem o seu jeito de lidar com as coisas e saber o que te atrapalha ou não, e aparentemente esse não é um ponto que ele sinta necessidade de mudar.

Ele não se importa em estar sozinho, em viver em um barco e em não ter uma família (Ei, pessoa, isso é o que você passou para mim, tá? Se é diferente, me perdoa).

A gente terminou na sinceridade, talvez até demais, porque ele me disse coisas que me deixaram sem dormir.

Se você está lendo tudo isso até agora (aliás, obrigada), eu quero te dizer que essa não é uma carta de amor, nem de revanche pelo meu ex, que nem sei se de fato foi meu algum dia.

Essa história aqui é sobre como eu caí, sobre como eu deixei a tristeza me pegar, e como em minutos eu pensei até em suicídio.

Lembram dos sinais de que eu não estava bem? Aqueles que eu ignorei? Pois bem, com o nosso término, o copinho de água que estava cheio, transbordou.

A culpa não foi dele, ninguém nessa vida tem que ser o suporte de ninguém, a gente precisa ser o nosso próprio apoio, sabe? Da hora ter com quem contar, mas aprender a contar consigo mesmo é muito mais importante.

Mas também não vale querer ser sozinho na vida, viu? (ou vale né, sei de mais nada).

De repente eu não dormia, eu não sentia fome, eu não tinha vontade de sair, e eu tinha medo. Medo de ficar sozinha, medo de não conseguir, medo de não dormir a noite de novo, medo de preocupar os meus pais, medo do que eu estava sentindo.

Eu não conseguia pensar em nada, eu estava machucada, e eu não sabia por quê.

No começo, eu me segurava na ideia de que dor de amor não mata, ela até machuca, mas jamais mata. Mas no fundo, eu sabia que eu não estava sofrendo por amor, eu sabia que aquele fator foi só o que me fez explodir.

Eu sabia, porque isso já aconteceu antes. Eu já quase pirei antes, mas dessa vez foi e é diferente.

Eu me sinto cansada, eu não tenho expectativas de que eu vá melhorar, eu quero só ficar na minha cama e sei lá, deixar de existir.

Talvez por ser uma recaída, a nossa bateria vai acabando, entende?

Pois é, foi assim que, vendo Netflix, e chorando os 45 minutos do episódio, que eu pensei, pela primeira vez, que morrer seria menos dolorido do que tudo que eu estava sentindo.

Eu não cheguei a cortar meus pulsos ou tentar pular da sacada, porque eu sabia que se eu fizesse isso, eu ia causar uma dor maior nas pessoas que eu amo (minha mãe não saia da minha cabeça).

Eu peguei o telefone e pedi ajuda para minhas amigas, e gente, quando eu comecei a contar tudo pra elas, eu chorei, como chorei, não sei se elas já tinham me visto assim.

Naquela hora eu queria minha mãe e meu pai, eu queria alguém que pudesse me ver chorar como uma criança, e mesmo assim não desistir de mim. Eu liguei para ela, pedi pra ela vir, e ela decidiu que era melhor eu ir.

Eu ainda não sei o que vai acontecer com o meu trabalho, eu tentei explicar da melhor forma que eu não tinha condições de trabalhar. Aparentemente eles entenderam.

Decidir ir pra casa me ajudou? Nenhum pouco, eu estou chorando, porque eu tenho 23 anos e fiz meus pais gastarem uma grana comprando uma passagem de avião na véspera da viagem. Eu estou me sentindo culpada, porque eu sei que eles não dormiram quando eu liguei chorando e pedindo ajuda.

Poxa, eles deviam estar se preocupando em se aposentar, em se sentir esperançosos com a minha formatura, empolgados com a nossa casa nova, e não comigo.

Eu estou triste, porque tenho um trabalho incrível, e não consigo me levantar para ir até ele. Me sinto culpada porque precisei deixar a Frida, o funcional, o médico que eu tinha marcado, tudo assim, em 24 horas.

Eu estou no aeroporto agora, indo para casa, indo sem saber se vou voltar, indo sem saber se quero ficar, estou indo sem saber de nada. A única certeza que tenho, é do choro, que escorre fácil, fácil, sem motivo certo, sem razão determinada.

Eu vou ver a minha psiquiatra, mas confesso que, dessa vez, estou sem esperança de que eu vá melhorar, eu já avisei meus amigos que preciso de companhia, mas não sei se vou querer sair de casa.

O fato gente, é que eu preciso tentar. Tentar viver sem essa dor, sem esse medo, sem esse choro, tentar viver sem me sentir um fardo, sem me sentir menor, inferior.

Eu preciso aprender a ser forte sabe? O mundo não vai me poupar, eu que tenho que segurar o mundo. Pode ser que amanhã, aquela pessoa que era minha, apareça com alguém, e eu vou ter que aprender. Pode ser que o trabalho fique difícil, que o TCC não ande, e eu vou ter que dar um jeito.

Como? Não sei, mas eu sei que preciso de ajuda, e eu realmente espero que ela apareça.

Ass.

Letícia Bellorio

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