DROGAS E DOENÇAS MENTAIS: QUAL A RELAÇÃO?

                O uso de drogas com finalidades recreativas ou para se obter experiências anormais tem início desde que se tem notícia que o homem descobriu que o uso de algumas substâncias poderia modificar a sensopercepção, a forma de pensar e o comportamento. Temos exemplos desse uso desde a Grécia Antiga com as pitonisas, as sacerdotisas que exalavam substâncias e entravam em transe para adivinhar o futuro, do uso do vinho nos textos bíblicos, inclusive com uma passagem em que Noé descontrolou-se no uso e acabou embriagado, o uso de raízes em alguns rituais indígenas, normalmente envolvendo um uso restrito para determinadas situações. Ou seja, poderíamos descrever aqui incontáveis exemplos. Sabe-se que existem inúmeras motivações para seu uso, as citadas no início do texto são só um dos exemplos. O uso de drogas sempre fez, e parece, que sempre fará parte dos costumes humanos.

Seria utópico, apesar de provavelmente mais saudável, imaginar um mundo em que as pessoas não consumissem drogas.  Um dos motivos desse desejo, pelo menos de grande parte dos pesquisadores dessa área são os riscos envolvidos no uso. Essas substâncias tem uma relação direta com o aumento de risco para doenças mentais, e algumas delas, extremamente graves, como a esquizofrenia. Soma-se a isso a relação de drogas e aumento de doenças somáticas, como as clássicas relações entre câncer e o uso do cigarro e a cirrose e o uso de álcool. Sem contar a triste relação de violência e uso de álcool, principalmente com os acidentes de trânsito, um dos grandes responsáveis pelas mortes em jovens no Brasil. Excluindo-se o tabaco, todas as outras substâncias (lícitas e ilícitas) aumentaram seu consumo nos últimos anos. Segundo o mais recente levantamento nacional sobre o consumo de drogas psicotrópicas em estudantes do ensino fundamental e médio em escolas públicas e privadas no Brasil em capitais brasileiras realizado pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas – CEBRID, em 2010 mostrou que 25,5% dos estudantes referiram uso na vida de alguma droga (exceto álcool e tabaco), 10,6% referiram uso no último ano e 5,5%  uso no último mês, com pequenas diferenças entre gêneros. Entre os que relataram algum consumo, embora a maioria tivesse idade maior de 16 anos, também foram observados relatos na faixa entre 10 e 12 anos! As drogas mais citadas pelos estudantes foram bebidas alcoólicas e tabaco, respectivamente 42,4% e 9,6% para uso no ano. Em relação às demais, para uso no ano, foram: inalantes (5,2%), maconha (3,7%), ansiolíticos (2,6%), cocaína (1,8%) e anfetamínicos (1,7%). O mesmo CEBRID, em 2005, data do último levantamento nacional de uso de drogas em adultos, demonstrou que o consumo de qualquer drogas, exceto álcool e tabaco, nos últimos 12 meses na população adulta era de 10,3%. A pesquisa encontrou uma distribuição de consumo de 74% de álcool, 44% de tabaco, 8,8% de maconha, 6,1% de solventes e 5,6% de benzodiazepínicos ao longo da vida. Cabe ressaltar que das drogas mais consumidas somente a maconha é considerada ilícita, logo indo de encontro àqueles que consideram que a legalização de seu uso poderia fazer com que seu consumo diminuísse.

                No século XIX o psiquiatra francês Moreau já descrevia o efeito do haxixe sobre o funcionamento do cérebro. Além do óbvio problema da dependência química, que por si só já é uma doença grave e crônica hoje possuímos um número cada vez maior de pesquisas que vinculam o uso de drogas e o aumento de doenças mentais. Temos relações com o uso do álcool e o aumento de quadros depressivos, o uso da maconha e o aumento de risco para o desenvolvimento de esquizofrenia (para determinados adolescentes com certas características genéticas o aumento do risco é de até 3 vezes), o tabaco e sua relação com quadros ansiosos e de depressões graves quando se tenta a abstinência da nicotina. Sem contar quadros psicóticos e crises de pânico com o uso de cocaína e seus derivados, como o crack. As alterações que algumas dessas substâncias provocam são claramente na forma do funcionamento cerebral. Regiões responsáveis pela tomada de decisões e do prazer são alteradas, muitas vezes, de forma permanente. Pessoas com certas predisposições genéticas aumentam não só o risco de surgimento da doença como também apresentam início mais precoce dessas doenças, o que está relacionado com pior prognóstico. De acordo com pesquisadores do Reino Unido que acompanharam pessoas por mais de 30 anos foi observada a queda do QI naqueles que fazem uso frequente da maconha ao longo da vida. O prejuízo psicológico e cognitivo parece estar ligado principalmente nas áreas da atenção, raciocínio e memória. Obviamente a maioria dos usuários, da maioria das substâncias psicoativas, não irá desenvolver dependência química, até porque existem muitos fatores associados que são necessários para que isso ocorra, como fatores genéticos, biológicos, psicológicos e até mesmo socioculturais. Pode-se dizer o mesmo sobre o desenvolvimento de doenças mentais devido a esse consumo, porem o risco existe, e não deve ser minimizado, além de não ser pequeno. O ideal é sabermos dos riscos que corremos e que podemos e devemos ter a possibilidade de não fazermos o uso dessas substâncias, aumentando com isso nossa qualidade de vida. E como diminuir o consumo? Um bom modelo é a Islândia que reduziu drasticamente o consumo de tabaco, drogas ilícitas e álcool entre os jovens com medidas muito simples, como por exemplo, aumentando o tempo que os adolescentes passavam em atividades com os pais e com a maior disponibilidade de atividades extraescolares de boa qualidade, como esportes e atividades culturais. Para se ter uma ideia o número de adolescentes que usavam tabaco diariamente caiu de 23 para apenas 3%.

O consumo de drogas é provavelmente um dos maiores fatores de risco, que pode ser prevenível, para o aparecimento de doenças mentais. Em uma época em que as pessoas ficam indignadas com a percepção do aumento de quadros psiquiátricos, muitas vezes achando um exagero nos diagnósticos e buscando culpados para essa situação, quase como se vivêssemos o que Machado de Assis descreveu no seu livro O Alienista, onde no fim da sua narrativa praticamente todos são considerados doentes mentais, acabamos esquecendo que talvez seja melhor trabalharmos com a prevenção, que do ponto de vista da saúde pública, geralmente, é o que é mais eficaz e econômico. O risco pode não parecer tão grande, mas quando ocorre pode levar ao desenvolvimento de doenças crônicas e que, em alguns casos, impedem o pleno potencial de cada um de nós. Defender o consumo ou minimizar os riscos sabendo-se de todos esses complicadores torna-se uma desonestidade intelectual. E isso sim é indignante.

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