Os 3 níveis de seleção e a empatia e sensibilidade ao outro

Skinner (1999), defendeu que o comportamento humano é produto de 3 níveis de seleção, sendo eles: filogenético (seleção natural, o que é comum aos membros da espécie), ontogenético (nos permite compreender os efeitos do condicionamento operante, ou seja, como o repertório comportamental de cada pessoa se molda a partir de suas experiências de aprendizagem ao longo da vida.) e cultural ( nos permite compreender o indivíduo através da sua aprendizagem cultural). Se focarmos no 3 nível, onde se encontram todos os valores, condições culturais, etc, a frase -“Os principais problemas enfrentados hoje pelo mundo só poderão ser resolvidos se melhorarmos nossa compreensão do comportamento humano.” (Skinner, 1974)-, faz total sentido, pois o homem é modelado por regras e valores sociais e por essas ocorre sua aprendizagem, além do meio ser consequência das interações sociais.

Tal conceito é importante para se referir à dois tipos de amor : Guilhardi (2012) aponta o comportamento sensorial quando não somos sensíveis que produzem consequências reforçadoras imediatas para aquele que se comporta; a pessoa não fica sob controle das consequências aversivas a médio e longo prazo nem para si, nem para o outro. Já o comportamento sensível prioriza as consequências que produz sobre o outro, uma vez que o bem-estar do outro teria função reforçadora para o indivíduo. O indivíduo também tem maior repertório de autocontrole, respeito, e isso não significa submissão incondicional, mas coerências com as consequências para ambos. 

Muitas vezes nos comportamos tendo a ideia de que estamos fazendo tudo em prol do outro, somos reforçados pela sociedade diante situações altruístas, como caridades; porém raro são aqueles que fazem isso apenas dentro do 3º nível de seleção, porque pelo menos há de sentirem a consequência natural “eu fiz bem para alguém, posso ser recompensado depois..”Para muitos, a própria sensação de fazer pelo outro já é reforçadora. Mas é importante pensar, estamos realmente fazendo pelo outro genuinamente, ou pelas consequências que terá para si mesmo? Por exemplo, quando você doa dinheiro para uma instituição, você está pensando no benefício que ela terá ou na fama de caridoso que terás? Continuaria fazendo se ninguém soubesse de tal ação?

Segundo Guilhardi, o 3º nível de seleção para ser muito difícil de ser alcançado por inteiro. Mas principalmente nos tempos atuais, a sensibilidade ao outro é um dos comportamentos mais fundamentais para sobrevivência humana. Ser sensível ao outro é tentar se colocar no lugar do outro e apropriar das suas dores, sentimentos, alegrias, mesmo sem ter passado por ela, é entender escolhas e ser tolerante à frustração. Muitos de nós demonstramos alguma sensibilidade de maneiras diferentes, uns através de conversas, outros pela companhia.

Recentemente, o filme “Extraordinário” trouxe uma bela reflexão sobre sensibilidade ao outro. O protagonista Auggie tinha uma deficiência facial, e sempre foi muito superprotegido pela mãe, que o alfabetizou até os 10 anos. Então ele passa a frequentar à escola, e ter que desenvolver uma série de repertórios diante as novas situações e dificuldades, como o bullying, preconceito. Esses comportamentos poderiam ser de contracontrole adequados (ex. saber responder a piada de um colega), de fuga/esquiva ( fugir de um evento aversivo-apenas quando fosse funcional), de tolerância à frustração e de autoconfiança e autoestima. 

Mesmo diante pessoas sensoriais e dificuldades, Auggie também tinha pessoas sensíveis como sua irmã que muito abdicou de coisas e tempo da mãe com ela por entender as necessidades do irmão, um pai trabalhador para trazer o sustento para família, a mãe que na sua superproteção queria o melhor do filho, além do seu novo amigo, que passou a reconhecer que, além de uma face um pouco fora do comum, Auggie tinha diversas qualidades como amigo.

Quantas vezes em nossas vidas nos deparamos ou enxergamos um Auggie, julgamos pelo 1º nível de seleção, pelo exterior, e o essencial fica invisível aos olhos. Esse nosso comportamento é provido principalmente por regras/autorregras que carregamos ao longo da vida, tais como estigmas, preconceitos, valores. E é preciso ver com o coração, para enxergar a dor, os desafios, e a história de vida do outro. O excesso de comportamento governado por regras nos faz pessoas julgadoras, perfeccionistas e pouco flexíveis. Precisamos quebrar com as primeiras impressões e valorizar os reforços positivos que o outro tem a passar (ex. ele tem uma deficiência, mas tem um papo muito legal). Na terapia, além de conhecermos nossas autorregras, ficamos mais sob controle de nos comportarmos pelas contingencias (pelo que ocorreu), recebemos estímulos discriminativos (sd’s) pelas próprias perguntas feitas pelo psicoterapeuta (sobre as autorregras, por que você agiu assim, como o outro se sentiu, como você se sentiria), e é dado modelos mais adequados para cada situação. O psicoterapeuta já pode ser um modelo, demonstrando escuta cautelosa com o cliente. O psicoterapeuta também irá instalar e reforçar/consequenciar os comportamentos do cliente que demonstrem sensibilidade e empatia.

Não precisamos concordar plenamente com o outro, mas entender o por quê levou o outro a agir assim, podemos mudar a forma como agiremos sobre o outro. Assim como já é um primeiro passo pensar em fazer algo pelo outro, mesmo que isto te traga um retorno próprio. E convenhamos, quando desenvolvemos nossa sensibilidade, nosso retorno sempre vem, basta ficar sob controle dos reforços naturais e intrínsecos!

Agora para refletir: Para verificarmos a forma como nos comportamos, devemos pensar qual tipo ocorre mais, sensorial ou sensível; qual a função de tal comportamento ao ajudar, o outro é a prioridade ou priorizo o benefício para mim? A consequência que teve para o outro foi reforçadora? Ou meu bem estar? Você se considera uma pessoa sensível ao outro? Quais comportamentos emite no dia a dia em relação ao outro que o faz ser sensível? Exemplos como ser gentil, oferecer ajuda, ceder o lugar, deixar a última bolacha do pacote, ouvir, esperar, dizer palavras carinhosas, entre outros. 

Escrito por Amanda Nunes, Psicóloga Mente Amiga.

GUILHARDI, Helio. OS SEIS SENTIDOS DE “THE LADY AND THE UNICORN”. 2012. Disponível em: <http://www.itcrcampinas.com.br/txt/seissentidos.pdf>.


SAMPAIO, Angelo Augusto Silva; ANDERY, Maria Amalia Pie Abib. Comportamento Social, Produção Agregada e Prática Cultural: Uma Análise Comportamental de Fenômenos Sociais1. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ptp/v26n1/a20v26n1.pdf>. 

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