SETEMBRO AMARELO, PENSANDO E AGINDO: PREVENÇÃO AO SUICÍDIO

“Quem se aniquila, transmite sua mensagem, mas não permite mais, em virtude de sua morte, conhecer sua transcendência, ou seja, sua capacidade de ir além daquilo que conhecia sobre si mesmo. Morto, não conseguirá fazer mais nada. Não conseguirá sequer perceber que seria capaz de se superar e de conquistar novas formas de se perceber e de se comunicar. Talvez pudesse descobrir que poderia rir de si e da situação caótica que o avassalava momentaneamente. Vivo, poderia comprovar que seria capaz de se sobrepor àquilo a que outrora acreditou ser impossível sobreviver. Vivo, teria condições de se superar, mas, morto, perdeu a chance de sorrir mais uma vez e de descobrir que sua vida valeria a pena ser vivida.” (FUKUMITSU, p. 111, 2018)

Em 2018, a taxa de suicídio nos Estados Unidos atingiu a marca de 14,2 casos a cada 100 mil habitantes, maior índice desde 1942, ano da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. 

No ano anterior estreava na Netflix a série – baseada em um livro voltado ao público infanto-juvenil – Os Treze Porquês [ou thirteen reasons why], que logo impulsionaria uma ampla discussão sobre o assunto na imprensa e nas redes sociais. 

A série adquiriu tamanha proporção que, independentemente de termos visto ou não, todos fomos convocados a opinar sobre ela.

As discussões sobre o suicídio, no entanto, não são algo tão novo assim. Melhor dizendo, elas são bem antigas e o tema é um dos grandes assuntos da filosofia ocidental. De Marx à Freud, passando por Durkheim, Sartre, Weber, Nietzsche e Simone de Beauvoir, grandes pensadores escreveram sobre. 

Ainda assim, uma das contribuições mais singelas sobre o assunto é do filósofo argelino Albert Camus. Em O mito de Sísifo, ele nos diz que o suicídio é a questão por excelência da filosofia. Em suas palavras:

Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia. O resto, se o mundo tem três dimensões, se o espírito tem nove ou doze categorias, vem depois. […] Se me pergunto por que julgo que tal questão é mais premente que tal outra, respondo que é pelas ações a que ela se compromete. Nunca vi ninguém morrer por causa do argumento ontológico […] Mas vejo, em contrapartida, que muitas pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. (CAMUS, 2018, p.17-18)

Ainda assim, após séculos de discussões, o suicídio se mantém como um tabu. Como um assunto sobre o qual tanto se escreveu e que está tão presente hoje na mídia continua sendo algo que é tão difícil de se falar e de se ouvir? Este silenciar não só revela, quanto potencializa o preconceito referente a esta temática.

Assim sendo, temos como retrato mais comum – através de séries e filmes – a representação do suicida como jovem e do sexo feminino. 

No entanto, os dados referentes às mortes por suicídio nos Estados Unidos, revelam a preeminência de casos entre homens entre 45 e 64 anos. Assim como nos Estados Unidos, no Brasil, longe de ser uma exclusividade de um estrato social, as taxas de suicídio são mais altas entre homens acima dos trinta anos. 

O que de mais alarmante que os dados revelam é que a taxa de suicídio no Brasil cresceu 47% entre 1996 e 2017.

As informações e análises em relação à população negra ainda são escassas para se pensar sobre o suicídio na população brasileira. Recentemente, em 1996, houve a inserção, tardia, da variável raça/cor no Sistema de Informações de Mortalidade do Ministério da Saúde (SIM/MS). 

Por meio das informações fornecidas pelo SIM em 2018, cruzando-se dados como idade, sexo e raça/cor, percebemos uma prevalência de mortes por suicídio entre jovens adultos (de 20 a 29) homens negros. 

Ainda que os negros correspondam a mais da metade da população brasileira, “alcançando representatividade numérica no universo estudado, e estejam expostos aos principais fatores predisponentes individuais e coletivos ao suicídio apresentados na literatura, este grupo não recebe qualquer análise específica sobre sua sub-representação nas notificações” (TEIXEIRA, p.73, 2017).

A população LGBTQIA+ também sofre com a escassez de pesquisas, dados e debates referente à esta temática, mesmo que a realidade demonstre que a taxa de suicídio entre a população é desproporcionalmente alta. 

Tal relação se estabelece através da verificação no que tange a discriminação social, violência sofrida por esses indivíduos e precário acesso condições para desenvolvimento e manutenção da saúde mental.

A situação é similar nas populações indígenas, que enfrentam, historicamente, condições de vida e saúde mais precárias do que a população em geral, sofrendo com a redução das terras e se suas populações. 

Ademais, os massacres e os ainda atuais conflitos por terra nas áreas indígenas são problemas que acirram a tensão entre os índios (MACHADO; SANTOS, 2015), em conjunto ao processo de desvalorização da cultura indígena ao longo da história. 

De acordo com levantamento de Machado e Santos (2015) tais elementos podem influir sobre a alta mortalidade por suicídio entre os indígenas no país, que chega a ser 132% maior do que entre a população geral em 2012.

A estes números, soma-se o fato, de acordo com Oliveira et. al. (2020), “que para cada suicídio, são atribuídas de 10 a 25 tentativas que não deram certo, isto é, metade das pessoas que se mataram já haviam tentado consumar o ato anteriormente” (p.2). 

Portanto, tentativas de suicídio prévias são um fator de risco para sua efetivação, além de outros fatores como: transtornos mentais, ideação suicida, fatores estressores crônicos recentes, meios acessíveis para cometer o suicídio, eventos adversos da história de vida (como abusos físico, psicológico e/ou sexual, dependência de substâncias, falta de apoio social), dentre outros. 

Também é necessário nos atentar ao fato de que o estigma está presente até mesmo na notificação dos casos de suicídio e tentativas, dado que ainda hoje existe a subnotificação de casos, seja por razões jurídicas, sociais ou religiosas.

Devemos partir, nas discussões sobre o tema, segundo Lóss; Istoe; Santos (2020), da afirmação da necessidade de se desmistificar o silêncio que permeia a morte, isto porque há um tabu e estigma que o circunda, especialmente quando se trata de uma morte violenta como o suicídio. 

Para tal, temos como objetivo falarmos abertamente sobre este assunto e ampliar nosso olhar para as estratégias de prevenção ao suicídio, defrontando os preconceitos associados a temática, bem como abrindo um espaço para pensarmos em enfrentamentos e resoluções de problemas mais funcionais. 

Afinal, é impossível falar sobre prevenção ao suicídio, sem falar sobre saúde mental e emocional.

É recorrente ouvirmos falar sobre o cuidado e a importância com a saúde mental, por isso, faz-se necessário defini-la. Segundo a OMS, saúde mental é a capacidade do sujeito de decisão frente a própria vida, apresentando habilidade para organizar-se internamente e externamente. 

Para que ele seja considerado dentro de parâmetros saudáveis no que tange a sua saúde mental caracterizamos que tenha capacidades para se adaptar diante de adversidades, enfrentando os obstáculos cotidianos, apresentando habilidades que contribuam para a sociedade por meio do trabalho e de outras atitudes, sendo de  suma importância uma relação de troca com o outro e consigo mesmo. 

De tal forma, a saúde mental envolve aspectos sociais, econômicos e culturais. Uma sociedade discriminatória, violenta e desigual a compromete, ao contribuir para seu desequilíbrio emocional.

Em conjunto a disseminação da ideia de cuidado com a saúde mental, o tema do suicídio passou a receber maior destaque no Brasil a partir da campanha Setembro Amarelo que, associado ao Dia da Prevenção do Suicídio (dia 10 de Setembro), promove o uso da cor amarela como conscientização sobre a prevenção do suicídio. 

A campanha Setembro Amarelo foi criada em 2015 em uma ação conjunta entre o Centro de Valorização da Vida (CVV), a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) e o Conselho Federal de Medicina (CFM), mas atualmente é amplamente divulgado por tantas outras instituições públicas e privadas.

É importante compreendermos o suicídio como um fenômeno complexo e multifatorial, que pode atingir indivíduos de diferentes classes sociais, idades, origens, orientações sexuais e identidades de gênero. 

Ele pode ser definido como:

[…] um ato deliberado executado pelo próprio indivíduo, cuja intenção seja a morte, de forma consciente e intencional, mesmo que ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal. Também fazem parte do que habitualmente chamamos de comportamento suicida: os pensamentos, os planos e a tentativa de suicídio.” (ABP, p.9, 2014)

Assim sendo, dado sua complexidade, o suicídio não pode ser considerado de forma simplista baseada apenas em acontecimentos pontuais da vida do indivíduo. 

Este, enquanto sujeito social, deve ser enxergado de forma global através de aspectos biopsicossociais que dizem respeito a sua subjetividade e sua forma de ver e estar no mundo, bem como a relação com os sistemas sociais que interage (família, amizades, trabalho, etc.).

Existem três características comportamentais que, de acordo com a OMS, geralmente fazem parte da psicodinâmica do suicida. A ambivalência, que pode ser traduzida na confusão com relação ao desejo de viver e de morrer, em que há ao mesmo tempo a urgência em ter sua dor “resolvida” através da morte e, por outro lado, o desejo de ultrapassá-la. 

Muitas vezes o desejo pela morte é confundido com o desejo de diminuir o sofrimento, acabar com a infelicidade, fugir de um problema específico. Quando, diante destas confusões, é fornecido o auxílio emocional adequado pode-se trabalhar o desejo de viver e o fortalecimento para lidar com tais adversidades, diminuindo o risco de suicídio.

Há também o comportamento impulsivo, que geralmente é transitório e se associa a desorganização mental provocada geralmente por eventos negativos. O acolhimento empático durante o tratamento e, principalmente, durante as crises pode interromper o impulso suicida do paciente. 

E, por fim, a rigidez comportamental se faz presente nestes indivíduos, uma vez que existe uma restrição e empobrecimento no que tange as resoluções e possibilidades de enfrentamento das situações vividas, ou seja, devido ao intenso sofrimento emocional esta pessoa tem dificuldades em perceber diferentes alternativas para enfrentar ou sair do problema.

De acordo com a Associação Brasileira de Psiquiatria o funcionamento mental gira em torno de três sentimentos:

“[…] intolerável (não suportar); inescapável (sem saída); e interminável (sem fim). Existe uma distorção da percepção de realidade com avaliação negativa de si mesmo, do mundo e do futuro. Há um medo irracional e uma preocupação excessiva. O passado e o presente reforçam seu sofrimento e o futuro é sombrio, sem perspectiva e com ausência de planos. Surge a ideação e a tentativa de suicídio, que pode culminar com o ato suicida. O peso da decisão de morrer repousa na interpretação dos eventos e a maioria das pessoas, quando saudável, não interpreta nenhum evento como devastador o suficiente para justificar o ato extremo.” (APB, p.26, 2014).

Isto posto, passemos a desnudar alguns mitos que ainda hoje são disseminados por meio do senso comum, através da tabela ilustrativa.

MitosVerdades
O suicídio é uma decisão individual, já que cada um tem pleno direito a exercitar o seu livre arbítrio.FALSO. Os suicidas estão passando quase invariavelmente por uma doença mental que altera, de forma radical, a sua percepção da realidade e interfere em seu livre arbítrio. O tratamento eficaz da doença mental é o pilar mais importante da prevenção do suicídio. Após o tratamento da doença mental o desejo de se matar desaparece.
Quando uma pessoa pensa em se suicidar terá risco de suicídio para o resto da vida.FALSO. O risco de suicídio pode ser eficazmente tratado e, após isso, a pessoa não estará mais em risco.
As pessoas que ameaçam se matar não farão isso, querem apenas chamar a atenção.FALSO. A maioria dos suicidas fala ou dá sinais sobre suas ideias de morte. Boa parte dos suicidas expressou, em dias ou semanas anteriores, frequentemente aos profissionais de saúde, seu desejo de se matar.
Se uma pessoa que se sentia deprimida e pensava em suicidar-se, em um momento seguinte passa a se sentir melhor, normalmente significa que o problema já passou.FALSO. Se alguém que pensava em suicidar-se e, de repente, parece tranquilo, aliviado, não significa que o problema já passou. Uma pessoa que decidiu suicidar-se pode sentir-se “melhor” ou sentir-se aliviado simplesmente por ter tomado a decisão de se matar.
Quando um indivíduo mostra sinais de melhora ou sobrevive à uma tentativa de suicídio, está fora de perigo.FALSO. Um dos períodos mais perigosos é quando se está melhorando da crise que motivou a tentativa, ou quando a pessoa ainda está no hospital, na sequência de uma tentativa. A semana que se segue à alta do hospital é um período durante o qual a pessoa está particularmente fragilizada. Como um preditor do comportamento futuro é o comportamento passado, a pessoa suicida muitas vezes continua em alto risco.
Não devemos falar sobre suicídio, pois isso pode aumentar o risco.FALSO. Falar sobre suicídio não aumenta o risco. Muito pelo contrário, falar com alguém sobre o assunto pode aliviar a angústia e a tensão que esses pensamentos trazem.
É proibido que a mídia aborde o tema suicídio.FALSO. A mídia tem obrigação social de tratar desse importante assunto de saúde pública e abordar esse tema de forma adequada. Isto não aumenta o risco de uma pessoa se matar; ao contrário, é fundamental dar informações à população sobre o problema, onde buscar ajuda etc.

Fonte: ABP (2014)

Discutirmos sobre essa temática tem sua importância exponencialmente aumentada pela necessidade de disseminamos a ideia de que não precisamos enfrentar as angústias provindas da vivência humana de forma solitária ou onipotente, acreditando que daremos conta de um “tudo” muito ilusório. 

Valendo-se das reflexões da educadora, psicóloga e suicidologista, Karina Okajima Fukumitsu (2018), vivemos em uma sociedade cuja dedicação é quase insana para que se alcance padrões de produtividade, desempenho, beleza e felicidade. 

Estes atingem um grau tão elevado de utopia e acabam por acarretar em sentimentos de fracasso e frustração por aqueles que percebem não alcançá-los, mesmo com tamanha energia dedicada.

À curto, médio e longo prazos, alguém rodeado deste ideal “deixa-se invadir […], acredita que é um fracassado e seu pensamento enrijece, antecipando que a experiência não passará e que suas forças sucumbirão antes do desfecho da situação complicada” (FUKUMITSU, p.106, 2018). 

Parafraseando Edwin Shneidman, estes indivíduos acabam por buscar para um problema que poderia ser temporário, uma atitude definitiva.

Vivemos em uma cultura que desvaloriza aquele que comunica seus sentimentos de forma aberta e expositiva, muitas vezes taxando-os de fracos. Este fato pode ser comprovado através dos preconceitos existentes ainda hoje, com relação a busca de psicoterapia, ou “pior” de auxílio psiquiátrico, sendo ambos ainda muito associados à loucura e os indivíduos que se submetem a estes serviços acabam descredibilizados.

Nesta sociedade os interlocutores são pouco incentivados a aprenderem a identificar, nomear, distinguir, controlar e “saber o que fazer” com seus sentimentos, pensamentos e atitudes, o que pode acarretar em um não desenvolvimento da inteligência emocional – capacidade de reconhecer, avaliar e lidar com seus próprios sentimentos e os dos outros, envolve aptidões que incluem autocontrole, zelo e persistência e a capacidade de automotivação – destas populações.

Não falamos sobre o que sentimos, porque em muitas situações não sabemos identificar e significar aquilo, quem dirá passar a mensagem adiante para outro sujeito. 

Isso se amplia para o campo da comunicação, uma vez que não sabemos nos expressar de forma assertiva uns com os outros sobre assuntos aleatórios e cotidianos, quem dirá sobre assuntos íntimos e tão delicados.

Valendo-se disto, podemos retornar à série Os Treze Porquês. São alguns os riscos assumidos pelos produtores ao construir Hannah, a personagem principal, como uma representação de alguém em sofrimento que culpabiliza seus pares, através da construção de uma narrativa algo vitimizada e que encontra no suicídio – que chega ao espectador de forma teatralizada e romantizada – a solução de seus problemas e redenção daqueles que vê como motivo para sua escolha (“um porquê”).

Do meu ponto de vista, ao mesmo tempo que teve como intenção falar sobre a temática, da forma como foi feita acaba por banalizar e reproduzir um discurso culpabilizador no que tange aqueles que lidam com o enlutamento por suicídio.

A personagem Hannah acaba por deixar a si e a seus pares como impotentes, uma vez que insiste em responsabilizá-los por sua escolha (em falas como “se você está nesta fita, você é o 9º porquê”). Importante relembrar os múltiplos aspectos, desenvolvidos ao longo do texto, que envolvem a atitude do suicida, para que assim possamos compreender os limites das ações individuais. 

Fica impossibilitado a todo e qualquer sujeito ser auxiliado de alguma maneira (seja pelos profissionais, seja pela rede de apoio, pelos amigos, familiares e afins) se este não é o seu desejo, ou seja, não podemos ajudar aquele que não quer ser ajudado. Recorrendo a Fukumitsu (2018):

“[…] digo aos meus clientes em sofrimento que devem “me ajudar a ajudá-los”. Ciente das minhas limitações como profissional e ser humano, sei que posso ser educadora para que meu cliente compreenda que nenhum ser humano pode dar conta de tudo. Assim, a exigência de sermos onipotentes cai por terra, evidenciando apenas um ser humano que se disponibiliza a acompanhar e a não deixar sozinho aquele que já se sente em solidão.” (p.105)

Assim, a série, como tido, assume uma posição perigosa ao alimentar uma fantasia adolescente, infelizmente, comum: o do suicídio como forma de vingança, como artifício para “punir” os que a injustiçaram e fizeram sofrer. Valendo-se das palavras de Fukumitsu (2018):

“A pessoa deseja eliminar uma parte de e em si ainda em vida. A parte vira o todo e não consegue compreender que é a responsável por satisfazer suas necessidades. Em contrapartida, assume a responsabilidade por todos os infortúnios, desavenças, conflitos e fracassos.” (FUKUMITSU, p.106, 2018)

Através de sua repercussão, fica evidente que a série contribuiu para trazer o tema da prevenção ao suicídio à tona na mídia e em discussões nas redes sociais, o que levou muitos espaços e profissionais a se pronunciarem, abordando temas não trabalhados na série e levando informação a mais pessoas. 

Entretanto, devemos, enquanto espectadores, nos atentar para a forma como foi sendo conduzida a construção, em muitos aspectos irresponsável, da obra como um todo.

Desta feita, nas discussões sobre o tema, não se pode perder de vista a necessidade de construirmos, individual e socialmente, a busca pelo que nos é essencial, construindo em cada ser a tolerância para lidar com os imprevistos ou com a realidade que nos cerca, praticando a habilidade da flexibilidade. 

Em consonância, “o essencial se torna aquilo que se vive na simplicidade e no dia a dia. O essencial é o que torna nossa realidade o nosso próprio sonho” (FUKUMITSU, p.112, 2018).

Mas afinal, a pergunta que fica é sobre como prevenir o suicídio. Entendemos que a resposta passa por diversos âmbitos e vertentes, dentre elas a abertura de um o espaço para se falar sobre, para que o sofrimento seja acolhido, espaço este onde não haja constrangimento em falar sobre os reais pensamentos e não haja julgamento por fazê-lo.

Espaço passível de troca e construção, para que se possa compreender a amplitude de tais sentimentos e o sistema por detrás deles, além de possibilitar o cultivo de esperança e de outras possibilidades diferentes deste fim. 

Deve ser criado um espaço de cuidado, de escuta atenta e qualificada, propiciando que o outro seja ouvido efetivamente e se crie um ambiente de confiança, respeito e cordialidade.

Destacamos que o racismo estrutural e o institucional têm sido apontados por movimentos sociais, publicações governamentais e organizações internacionais como determinantes da baixa qualidade de vida e inequidade no acesso à saúde, o que corresponde aos fatores de risco para o suicídio, como apontados na literatura. 

Existe, em conformidade, a necessidade de implantação de políticas públicas emergenciais para prevenção do suicídio para cada um destes públicos, abordados superficialmente, efetivando-as e levando em conta suas peculiaridades e especificidades.

Devemos, desenvolver ainda mais acesso as rede de atenção em saúde mental e trabalhar na elaboração de estratégias políticas que possam melhorar a qualidade de vida dos indivíduos e reduzir as taxas de comportamentos suicidas.

É importante compreender que existem fatores de risco para o suicídio, como: histórico familiar de suicídio, segredos familiares, ambiente hostil, violência, abusos, drogas, bullying, anorexia, bulimia, dentre outros, que podem ser trabalhados, elaborados e ressignificados. 

Todavia, não esqueçamos, há fatores de proteção importantes, como: religião, família, comunicação ampla, ações de intervenção e suporte, saúde mental, atendimento humanizado, restrição aos meios letais, dentre outros, que devem ser fortalecidos e incentivados.

 Escrito por: Psicóloga Mariana Diniz

CRP: 06/142181

Mariana atualmente atende pela Mente Amiga.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

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CAMUS, A. O mito de Sísifo. Tradução de Ari Roitman, 12ª ed – Rio de Janeiro: Record, 2018.

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FUKUMITSU, K. O. Suicídio: do desalojamento do ser ao desertor de si mesmo. Revista USP, São Paulo, n. 119, p. 103-114. Outubro/novembro/dezembro, 2018.

LÓSS, J. C. S.; ISTOE, R. S. C.; SANTOS, M. F. R. Desmistificando os muros do silêncio: tendências dos estudos sobre o fenômeno suicídio e o impacto na saúde pública. In: VARGAS, A. F. M.; SOUZA, C. H. M.; CAMPOS, M. M. (orgs.). Tendências e controvérsias nas pesquisas em ciências sociais e saúde. Campos dos Goytacazes, RJ: Brasil Multicultural, 2020, p. 155-166.

MACHADO, D. B., SANTOS, D. N. Suicídio no Brasil, de 2000 a 2012. J Bras Psiquiatr. 2015;64(1):45-54

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