Tudo bem não estar tudo bem

Ouvimos diariamente que não devemos reclamar, devemos ser gratos por tudo, pois existem pessoas em situações piores do que a sua. Acredito que, em parte, isso seja verdade. Afinal, se vivermos uma vida de reclamações e ingratidão, só iremos atrair mais coisas que nos incomodam e, portanto, nos tornam ingratos com a vida que temos.

Agora falo como a “pessoa que está em uma situação pior que a sua”. Ter uma doença como o câncer é estar diante de muita gente que se pergunta todos os dias “por que eu?”, “o que eu fiz para merecer isso?” e, às vezes, ser essa pessoa. Vejo pacientes em diferentes estágios da doença e com estados mentais diversos. Pessoas revoltadas, tristes, alegres, agradecidas… afinal, não temos um manual para seguir, e cada um enfrenta esse desafio de uma forma única e muito pessoal.

Eu reclamo e choro quando vejo meu cabelo cair por causa da quimioterapia. Fico desesperada, achando que o mundo vai acabar, quando vejo que estou com tão pouco cabelo que consigo me imaginar careca. Choro quase que diariamente pensando nisso. Muitos me questionam “como você pode se preocupar com o cabelo sendo que está enfrentando um problema muito maior que esse?”. Talvez eu me preocupe tanto assim com meu cabelo porque (graças a deus) as chances de cura do meu tipo de câncer chegam a 99% e porque eu quase não sinto efeitos colaterais da quimio. Diante de todo esse furacão, é a única coisa que me preocupa, porque eu tenho certeza que vou estar curada em pouco tempo.

Mas, ao mesmo tempo, sou muito grata por infelizmente ter tido essa doença. Grata pelas oportunidades que tive de reconhecer que sou amada, de fazer coisas que inspiram as pessoas, de me sentir muito mais inteligente do que eu imaginava. Grata pela vida maravilhosa que eu tive até agora e pela vida extraordinária que eu vou ter daqui pra frente. Porque o câncer nos faz abrir os olhos para muitas coisas, é uma delas é aprender a valorizar a vida e as pessoas que você tem.

Enfim, eu tenho muito do que reclamar, tenho motivos para ficar triste e desanimada, e me permito sentir essas coisas. Mas também tenho em mente que tudo na vida é passageiro e nenhum sofrimento é eterno. Assim, me recomponho, levanto-me e sigo em frente, rumo ao fim dessa luta contra o câncer.

Quero te dizer para não se preocupar tanto assim com essa “positividade” e “gratidão” que tentam nos enfiar goela abaixo todos os dias. Está tudo bem não estar tudo bem. Você só não pode deixar isso te paralisar e te arrastar para um buraco sem saída. Permita-se chorar, espernear e se desesperar quando a agonia bate na porta. Mas também permita que esses sentimentos possam ir embora, permita-se recomeçar.

Ass.

Carol Antunes

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